COLUNA - PARÁ EDUCANDO
Por uma semente de paz
Foram dois ataques a escolas, os quais deixaram vítimas, famílias enlutadas e indignação. Em tempos pandêmicos, a violência tornou-se tão comum, quanto à morte, ao ponto de já não sensibilizar parte significativa de pessoas, banalizando o que deve ser veemente combatido, como os crimes cometidos dentro dos espaços de educação formal. O que parece ser comum jamais deve ser visto ou aceito como normal, os atos violentos, em suas mais diversas formas explícitas ou veladas.
Em Nashville, Tennessee, nos EUA, uma mulher de 28 anos invadiu uma escola e matou, com armas de fogo, três crianças e três adultos. No Brasil, no oeste de São Paulo, um adolescente de 13 anos invadiu a Escola Estadual Thomazia Montoro, da qual era aluno, e feriu a facadas um aluno e três professores, sendo que um deles, Elisabete Tenreiro, de 71 anos, professora que atuava na escola desde janeiro, acabou morta. Na semana passada, a professora Elisabete separou uma briga que envolvia dois alunos da escola e um deles foi o autor de sua morte, dias depois que cometeu injúria racial contra o colega de sala de aula, e prometeu vingança por ser impedido de continuar a confusão.
Cenas de barbáries como essas apontam o meio social fragilizado e seu nítido agravamento, após a pandemia da Covid-19. São os estilhaços da explosão de intolerância, de intransigência, de preconceito e de fomento ao extremismo ideológico fortalecido no nosso país nos últimos anos. A conduta de poder que o belicismo trouxe ao Brasil, com o incentivo à população ao armamento, somado à grave desinformação e ignorância, expõe o quão atroz essas circunstâncias colocam em risco social o espaço da escola.
A professora Elisabete, em sua tentativa de apaziguar o conflito, teve sua vida ceifada por um aluno que tramou vingança por se sentir injustiçado ao não concluir sua violenta atitude de racismo e intolerância. Os pais ou responsáveis por esse adolescente não perceberam ou ignoraram seu comportamento agressivo ou atípico, o que facilitou o êxito em sua ação. Esse caso é um, em meio ao universo dos 5.568 municípios e suas respectivas escolas, que o país tem. O que estamos fazendo para conter essa avalanche de vulnerabilidade social e os mais abrangentes tipos de violência que adentram o chão da escola?
Males como ausência de atenção, de diálogo, de afeto, de cuidado, de interação e reciprocidade familiar, somados ao que já vínhamos vivenciando nos últimos anos, têm sido gatilhos profundos nos espaços escolares, materializados em ações de desagravo, e expõem, ainda, que devemos pensar e agir não somente no processo de recomposição da aprendizagem do processo formal da educação, mas também na recomposição da aprendizagem do processo de humanização e da educação que, de fato, educa para viver em sociedade, que valoriza a vida e dá a devida importância do convívio com o próximo e suas pertinências em busca da cultura de paz que tanto carecemos.
Já não há como se esquivar da responsabilidade que urge e se faz imprescindível e pertinente ao futuro de crianças e adolescentes que carregam, na bagagem emocional, traumas advindos dos mais diversos tipos de conduta violenta que sofreram, agravadas com o período do isolamento social, na pandemia e demais cerceamentos vividos nesses tempos.
A sociedade adoeceu e fragilizou valores basais de vida no coletivo. Todavia, não se pode refutar a importância da resiliência e da empatia para a possibilidade de dias melhores, a de fim dar o suporte e o aporte necessários a esses indivíduos, para que se desenvolvam nessa perspectiva de valores e de princípios instituídos e construídos, com o objetivo de garantir uma sociedade menos doente, uma vez que não sabemos quando chegaremos ao nível salutar novamente.



